Portugal precisa de mais casas. Mas quem as vai construir?

Falar de habitação tornou-se quase obrigatório. Há quem aponte o dedo ao turismo, aos investidores, aos senhorios, aos bancos, aos licenciamentos, aos estrangeiros ou aos promotores. Mas há uma pergunta menos mediática e talvez mais importante: mesmo que todos concordem que faltam casas, temos capacidade para as construir?

A falta de casas já não é uma teoria

Durante anos, o debate sobre a habitação ficou preso na discussão dos preços: casas caras, rendas altas e salários que não acompanham. Tudo isso é verdade. Mas por trás dos preços existe uma realidade mais básica: Portugal construiu pouco durante demasiado tempo.

A falta de casas já não é uma teoria

O país enfrenta hoje uma escassez habitacional que afeta praticamente todas as regiões de maior procura, desde Lisboa e Porto até ao Algarve. O crescimento da população (muito por causa da imigração), a redução da dimensão média das famílias (que reduz o racio de residentes por habitação), a procura internacional e anos de construção insuficiente criaram um desequilíbrio difícil de ignorar.

A questão já não é apenas saber porque subiram os preços. A verdadeira questão é perceber porque não existem casas suficientes para responder às necessidades atuais.

Construir mais parece simples. Na prática, não é.

Construir mais parece simples. Na prática, não é.

Quando se fala em resolver a crise da habitação, a resposta surge quase sempre de forma imediata: é preciso construir mais.

Mas construir uma casa continua a ser um processo longo, dispendioso e complexo. Exemplificando:

  • É necessário encontrar terreno disponível, elaborar projetos, obter aprovações, garantir financiamento, contratar equipas técnicas, encontrar mão de obra qualificada e assegurar materiais. Tudo isto antes mesmo de começar a obra!
  • Muitos projetos enfrentam atrasos provocados por licenciamentos demorados, custos de construção elevados ou dificuldades em encontrar empresas com capacidade para assumir novas empreitadas.

O resultado é simples: a procura cresce mais depressa do que a oferta.

O setor perdeu capacidade durante muitos anos

O setor perdeu capacidade durante muitos anos

Depois da crise financeira que marcou a década passada, muitas empresas de construção reduziram atividade ou desapareceram. Milhares de trabalhadores mudaram de profissão ou emigraram para outros países europeus.

Hoje, quando existe necessidade de acelerar a construção, o setor encontra-se perante uma realidade diferente daquela que existia há 20 anos.

Em Portugal e atualmente, há menos empresas, menos mão de obra disponível e uma necessidade crescente de especialização.

Ao mesmo tempo, os edifícios atuais exigem padrões muito mais elevados em matéria de eficiência energética, sustentabilidade, segurança e qualidade construtiva. Tudo isto torna os processos mais exigentes e aumenta a pressão sobre um setor que já trabalha perto dos seus limites.

Por outras palavras, não basta existir procura. É preciso existir capacidade para a satisfazer.

O que está a ser feito em Portugal?

O que está a ser feito em Portugal?

Nos últimos meses, o tema da habitação ganhou um peso sem precedentes na agenda política. O Governo atual, bem com os anteriores, têm procurado criar condições para aumentar a oferta, simplificar procedimentos e incentivar a construção, mas nem sempre os resultados são o esperado.

Entre as medidas mais recentes encontram-se incentivos fiscais para a habitação, alterações legislativas relacionadas com o ordenamento do território e novos mecanismos destinados a acelerar projetos de construção e reabilitação. Mas a resposta não depende apenas do Estado.

Algumas autarquias estão a desenvolver programas próprios de habitação acessível (muitos deles financiados pelo PRR-Plano Europeu de Recuperação e Resiliência), disponibilizando terrenos municipais e promovendo novas urbanizações. Lisboa e Oeiras continuam a investir em projetos de arrendamento acessível, enquanto outras câmaras procuram igualmente aumentar a oferta disponível para residentes.

Ao mesmo tempo, começam a surgir novos modelos de colaboração entre entidades públicas e investidores privados, numa tentativa de acelerar a produção de habitação sem depender exclusivamente do investimento estatal.

Os privados começam a mudar de estratégia

Os privados começam a mudar de estratégia

Também os promotores imobiliários estão a adaptar-se à nova realidade. 

Uma das tendências mais interessantes é o crescimento do modelo Build to Rent:

No modelo Build to Rent os edifícios são construídos especificamente para arrendamento em vez de serem vendidos apartamento a apartamento.

Este modelo já está consolidado em vários países europeus e começa a ganhar expressão em Portugal. A ideia é simples: criar oferta estável de habitação para arrendamento através de projetos geridos profissionalmente e pensados para o longo prazo.

Paralelamente, várias empresas estão a apostar em sistemas de construção industrializada e pré-fabricação. O grupo português Casais é disso um bom exemplo através da sua marca Blufab

Na construção industrializada, em vez de produzir todos os elementos diretamente na obra, uma parte significativa é fabricada em ambiente industrial e montada posteriormente no terreno.

Esta abordagem pode reduzir prazos, minimizar desperdícios e aumentar a previsibilidade dos custos. Não resolve todos os problemas, mas pode ajudar a aumentar a capacidade de resposta do setor. Nesse sentido, encontra-se em vias de regulamentação o decreto-lei para a industrialização da construção modular, que visa simplificar os procedimentos de licenciamento e garantir a conformidade técnica destas novas soluções construtivas.

Os 3 grandes obstáculos continuam a existir

Os três grandes obstáculos continuam a existir

Apesar das iniciativas em curso, existem 3 desafios que continuam a travar o aumento da oferta habitacional.

  1. Tempo: Mesmo com reformas administrativas, os processos continuam a demorar demasiado em muitos casos. Veremos se as mudanças legislativa mais recentes serão capazes de mudar este cenário.
  2. Mão de obra: A construção precisa de atrair novos profissionais, sendo a imigração a opção mais provável. Investir na formação e recuperar parte da capacidade perdida ao longo dos últimos anos.
  3. Viabilidade económica: Construir habitação acessível em zonas com terrenos de custo elevado continua a ser uma equação difícil para os promotores. Este problema só poderá ser ultrapassado através da expansão das áreas urbanas e do reforço da rede de transportes. Por outro lado, serão necessárias mudanças na estrutura de custos, tais como o crescimento da dimensão das empresas, o acesso a financiamento mais barato, a aposta na industrialização e na construção modular, e a redução dos custos de contexto.

Sem resolver estes 3 pontos, será difícil aumentar significativamente o número de casas disponíveis no mercado.

O que estão outros países a fazer?

O que estão outros países a fazer?

Portugal não é caso único. A dificuldade em encontrar habitação acessível está presente em grande parte da Europa e também em vários países fora dela.

  • No Reino Unido, o Governo definiu metas ambiciosas para aumentar a construção de habitação, promovendo alterações às regras de planeamento urbano e procurando acelerar a aprovação de projetos.
  • Nos Países Baixos, existe um plano nacional para a construção de centenas de milhares de novas habitações até ao final da década, com forte coordenação entre o Governo central e as autoridades locais.
  • A Irlanda está a investir simultaneamente em habitação pública, habitação acessível e incentivos à construção privada, procurando diversificar as respostas ao problema.
  • Em Espanha, várias iniciativas passam pela disponibilização de terrenos públicos, construção de habitação acessível e utilização de património do Estado para aumentar a oferta.

Fora da Europa, países como o Canadá e a Nova Zelândia têm apostado em reformas urbanísticas, incentivos à construção e novas formas de financiamento para tentar responder ao crescimento da procura.

Apesar das diferenças entre países, existe uma conclusão comum: nenhuma solução isolada resolve o problema. É necessária uma combinação de planeamento, investimento, construção pública, participação privada e simplificação dos processos.

A pergunta certa já não é "faltam casas?"

A pergunta certa já não é 'faltam casas?'

A resposta a essa pergunta é evidente: faltam. A verdadeira questão é outra:

Quem consegue construir as casas de que precisamos, nos locais onde fazem falta, a um ritmo suficiente e a preços compatíveis com os rendimentos das famílias?

A resposta terá necessariamente de envolver o Estado, as autarquias, os promotores, as empresas de construção, os investidores e os próprios cidadãos.

Construir mais casas não significa apenas erguer edifícios. Significa criar condições para que toda uma cadeia funcione melhor: planeamento, licenciamento, financiamento, mão de obra, infraestruturas e confiança.

Sem isso, continuaremos a discutir preços num mercado onde a oferta chega sempre mais tarde do que a procura.

No final, a crise da habitação pode resumir-se numa frase simples: Portugal precisa de mais casas, mas precisa sobretudo de voltar a ser capaz de as construir.

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